Estudo da Universidade de Granada acompanha os clubes sociais de cannabis na Espanha, do ativismo dos anos 1990 ao fechamento judicial, com lições para Tenerife.
Um estudo da Universidade de Granada reconstruiu a ascensão e o declínio dos clubes sociais de cannabis na Espanha por meio de 289 decisões judiciais emitidas entre 1997 e 2025, traçando a trajetória de um experimento nacional cujo espaço jurídico foi progressivamente estreitado pelo Supremo Tribunal e pelo Tribunal Constitucional da Espanha. Para Tenerife e para a província mais ampla, o estudo oferece um importante contexto nacional: os clubes sociais de cannabis são associações privadas, sem fins lucrativos e exclusivas para membros segundo a legislação espanhola, e não lojas, dispensários ou locais abertos ao público.
O modelo de clube começou como um experimento jurídico e social
O estudo da Universidade de Granada resumido pelo lasDrogas.info descreve o clube social de cannabis como um produto da ambiguidade jurídica e do ativismo organizado na Espanha. As primeiras associações surgiram durante os anos 1990 entre pessoas que consumiam cannabis e buscavam uma alternativa comunitária ao mercado ilícito. Seu modelo declarado era sem fins lucrativos, coletivo e baseado no autocultivo, e não no comércio varejista.
Essa distinção continua sendo essencial em Tenerife. Um clube social é uma associação privada cuja filiação é regida pela organização individual; não é um estabelecimento aberto ao público. Visitantes não se tornam membros simplesmente por chegar a Tenerife, e a história nacional dos clubes não deve ser interpretada como um convite geral ou uma garantia de acesso.
O modelo original se baseava em várias premissas interligadas:
- Pessoas que consumiam cannabis se organizavam por meio de associações, e não de lojas comerciais.
- O cultivo era concebido coletivamente e sem fins lucrativos.
- A associação atendia a um grupo fechado de membros, e não ao público em geral.
- O modelo buscava distinguir o consumo compartilhado dentro de um grupo definido do tráfico ou do fornecimento comercial.
O estudo apresenta os clubes não como um projeto direto de legalização, mas como uma forma de contestação de políticas públicas. Ativistas, instituições regionais, promotores e tribunais testaram repetidamente a fronteira entre a atividade coletiva privada e condutas que a legislação penal espanhola tratava como facilitação ou tráfico.
Uma visão neutra do modelo também exige reconhecer suas limitações. As associações não receberam uma única lei nacional abrangente que estabelecesse um marco operacional estável. Em vez disso, seu espaço de atuação se desenvolveu por meio de interpretações jurídicas, abordagens regionais e decisões judiciais que podiam mudar ao longo do tempo.
O modelo associativo, portanto, é mais bem compreendido por meio de suas características institucionais do que por uma comparação com o varejo:

Uma zona jurídica indefinida abriu caminho para a expansão
O estudo relaciona a abertura dessa zona indefinida às mudanças no marco jurídico espanhol durante os anos 1980. A reforma de 1983 do Código Penal espanhol diferenciou a cannabis das substâncias tratadas como mais graves, deixando o próprio consumo fora da punição criminal. Ao mesmo tempo, o tráfico e a facilitação continuaram sendo puníveis.
Essa combinação criou incerteza em torno do autoconsumo e do consumo coletivo. Associações como a ARSEC, em Barcelona, usaram o cultivo coletivo como forma de pressionar os tribunais a esclarecer essa fronteira. A jurisprudência resultante foi inconsistente durante os anos 1990, com condenações e absolvições, mas uma doutrina do “consumo compartilhado” se desenvolveu gradualmente. Ela diferenciava o tráfico do fornecimento sem fins lucrativos entre um grupo fechado de pessoas que consumiam cannabis.
Os principais marcos desse desenvolvimento foram:
O País Basco se tornou o cenário regional mais estável durante o período de 2002 a 2011. O estudo descreve associações como a Kalamudia se dividindo estrategicamente em grupos menores em resposta à jurisprudência. Em 2003, foi criada a Federação de Associações de Cannabis, conhecida como FAC, para coordenar estratégias jurídicas e incentivar a autorregulação.
A abordagem das instituições bascas também foi significativa. Elas adotaram uma atitude mais aberta ao diálogo, apoiaram pesquisas e facilitaram o debate público. Os autores descrevem o resultado como a criação de zonas temporárias de tolerância: espaços nos quais os clubes podiam operar por algum tempo, mas sem a certeza de um acordo nacional permanente.
O código da ENCOD de 2011 formalizou princípios associados ao movimento, incluindo a operação sem fins lucrativos e objetivos de redução de danos. Ainda assim, um código de conduta não poderia substituir a legislação. Os clubes continuaram dependentes da forma como promotores, autoridades regionais e tribunais interpretavam o marco existente.
A Catalunha acelerou o movimento e revelou sua escala
A expansão mais acentuada ocorreu a partir de 2012 na Catalunha, especialmente em Barcelona. O estudo registra 72 novas associações inscritas na Catalunha em 2012, seguidas por aumentos substanciais em 2013 e 2014. Ao final da década, o total nacional havia alcançado uma estimativa de 800 a 1.000 clubes.
O crescimento não foi uniforme em toda a Espanha. A Catalunha ultrapassou o País Basco por uma ampla margem em associações registradas por 100.000 habitantes, enquanto o modelo basco havia se desenvolvido antes por meio de uma combinação mais cautelosa de estratégias associativas e diálogo institucional. O contraste ajuda a explicar por que o movimento nacional podia parecer ao mesmo tempo consolidado e juridicamente indefinido.
O contraste regional descrito pelo estudo pode ser resumido da seguinte forma:
| Período | Localização principal | Desenvolvimento registrado pelo estudo | Fonte |
|---|---|---|---|
| 1990s | Barcelona e o restante da Espanha | A ARSEC e outros ativistas promoveram o cultivo coletivo, enquanto os tribunais proferiam condenações e absolvições contraditórias. | Estudo da Universidade de Granada sobre a ascensão e o declínio dos clubes espanhóis |
| 2002–2011 | País Basco | O modelo de clube se consolidou de forma mais constante; a Kalamudia adaptou sua estrutura e a FAC posteriormente coordenou estratégias jurídicas e de autorregulação. | Estudo da Universidade de Granada sobre a ascensão e o declínio dos clubes espanhóis |
| 2012–final dos anos 2010 | Catalunha e Espanha | A Catalunha registrou 72 novas associações em 2012 e um forte crescimento nos dois anos seguintes; a Espanha alcançou uma estimativa de 800–1.000 clubes ao final da década. | Estudo da Universidade de Granada sobre a ascensão e o declínio dos clubes espanhóis |
Os dados centrais do estudo mostram tanto a amplitude da expansão quanto a dimensão do registro jurídico examinado:
Esses números não devem ser tratados como evidência de um mercado nacional regulamentado. Eles descrevem a expansão de associações que operavam em um ambiente jurídico contestado. O crescimento dos registros não resolveu a questão subjacente de onde terminava a atividade coletiva privada e começava o fornecimento proibido.
A experiência catalã também tornou o movimento mais visível. À medida que o número de associações crescia rapidamente, ficou mais difícil tratar o modelo como um experimento jurídico de pequena escala. Essa visibilidade aumentou a pressão sobre os tribunais e as autoridades públicas para definir se a doutrina existente poderia sustentar uma rede ampla e diversificada de clubes.
A expansão é mais bem representada pela marca administrativa que criou:

Os tribunais estreitaram progressivamente esse espaço
O declínio descrito pelo estudo não foi causado por uma única decisão administrativa isolada. Ele surgiu por meio de um endurecimento progressivo da interpretação judicial. Os autores combinam literatura acadêmica, documentos do movimento, debates legislativos e um conjunto de 289 decisões judiciais para mostrar como o espaço ambíguo foi gradualmente fechado pelo Supremo Tribunal e pelo Tribunal Constitucional da Espanha.
O processo é importante porque o modelo de clube sempre dependeu de distinções estreitas e específicas dos fatos. Uma associação fechada, o cultivo coletivo e a distribuição sem fins lucrativos podiam ser tratados de forma diferente do tráfico, mas essa distinção exigia que autoridades e tribunais examinassem como cada organização realmente operava. A expansão aumentou o número de casos nos quais essas distinções precisavam ser testadas.
Os autores descrevem os acordos regionais anteriores como “zonas temporárias de tolerância”.
Estudo da Universidade de Granada
O estudo identifica várias forças que moldaram a ascensão e o declínio posterior:
- Ativistas usaram estruturas associativas e o cultivo coletivo para desafiar os limites da legislação penal.
- Instituições regionais adotaram diferentes níveis de diálogo, apoio à pesquisa e participação pública.
- Promotores e tribunais avaliaram se os clubes individuais continuavam dentro da lógica do consumo compartilhado.
- Federações e ativistas promoveram a autorregulação, mas códigos voluntários não criaram um marco legal nacional.
- Decisões posteriores do Supremo Tribunal e do Tribunal Constitucional da Espanha reduziram o espaço jurídico que havia permitido a expansão do movimento.
Isso explica por que a palavra “declínio” não deve ser interpretada simplesmente como uma queda do interesse público. Ela se refere ao enfraquecimento das condições jurídicas e institucionais que haviam permitido o desenvolvimento dos clubes. Um movimento pode continuar socialmente visível enquanto perde a proteção judicial e a tolerância administrativa das quais seu modelo operacional dependia.
Para os leitores em Tenerife, o ponto importante é que o marco espanhol nunca foi uma autorização geral para o comércio varejista. A jurisprudência nacional dizia respeito aos limites da associação privada e do consumo compartilhado. Ela não transformou os clubes em dispensários abertos e não estabeleceu que a filiação está disponível para qualquer pessoa que viaje para uma ilha ou outra região espanhola.
O registro jurídico é visualizado com mais clareza como um arquivo de fronteiras contestadas:

O que a trajetória da Espanha significa para Tenerife
A relevância de Tenerife para essa história nacional é principalmente jurídica e institucional. O estudo fornecido não apresenta uma contagem atual de clubes na ilha, uma decisão específica de Tenerife ou um registro de toda a ilha. Portanto, seria incorreto usar a estimativa nacional de 800 a 1.000 clubes como um número referente a Tenerife ou afirmar que a ilha seguiu exatamente o mesmo caminho da Catalunha ou do País Basco.
O que se pode dizer é mais limitado, mas mais útil. Qualquer associação privada de cannabis em Tenerife está inserida no marco jurídico nacional da Espanha e deve ser compreendida por meio da mesma distinção entre uma associação sem fins lucrativos e exclusiva para membros e um estabelecimento comercial aberto. Cada associação determina suas próprias regras de filiação, e ser residente ou visitante não cria, por si só, um direito de entrada.
Reportagens recentes sobre ações de fiscalização em outras partes da Espanha ilustram por que essa distinção continua sendo operacional, e não apenas teórica. As autoridades de Carmona determinaram o fechamento cautelar de um clube de cannabis em 23 de julho de 2026, depois de detectarem deficiências graves e cannabis cuja origem não havia sido comprovada, segundo uma reportagem sobre o fechamento em Carmona. Esse caso não é uma evidência sobre Tenerife, mas mostra como as autoridades locais podem intervir quando a operação de uma associação levanta preocupações regulatórias ou probatórias.
O estudo nacional também ajuda a explicar por que os debates locais podem ser difíceis de resolver. O movimento dos clubes na Espanha cresceu por meio de uma governança descentralizada, de variações regionais e da interpretação judicial, e não por meio de uma única lei nacional clara. O resultado foi um marco no qual os mesmos princípios associativos gerais podiam ser discutidos de maneiras muito diferentes por ativistas, municípios, promotores e tribunais.
Para moradores de Tenerife e visitantes internacionais, as questões práticas são, portanto, mais restritas do que a linguagem de um “clube” de cannabis pode sugerir:
O que o modelo espanhol de clube estabelece — e o que não estabelece
Os clubes sociais de cannabis são lojas ou dispensários?
Não. O modelo descrito pelo estudo se baseia em associações privadas, sem fins lucrativos e exclusivas para membros, e não no comércio varejista aberto.
Viajar para Tenerife proporciona automaticamente a filiação a um clube?
Não. A filiação é uma questão privada decidida por cada associação. A chegada a Tenerife ou a outra região espanhola não cria, por si só, acesso.
Quantos clubes sociais de cannabis existem em Tenerife?
O estudo fornecido não apresenta uma contagem atual de Tenerife nem um registro de toda a ilha; portanto, não é possível fornecer um número confiável com base nesses fatos.
Qual período o estudo da Universidade de Granada examinou?
Seu conjunto de decisões judiciais contém 289 decisões emitidas entre 1997 e 2025, juntamente com documentação acadêmica, legislativa e do movimento.
Por que o movimento nacional de clubes entrou em declínio?
O estudo atribui o declínio ao fechamento progressivo do espaço jurídico ambíguo pelo Supremo Tribunal e pelo Tribunal Constitucional da Espanha, após anos de variação regional e contestação judicial.
Os principais pontos para os leitores de Tenerife são estes:
O movimento dos clubes sociais de cannabis na Espanha cresceu porque ativistas e instituições regionais encontraram espaço para testar os limites do Código Penal espanhol, e entrou em declínio à medida que os tribunais fecharam progressivamente esse espaço. Para Tenerife, a lição não é que um auge nacional dos clubes tenha criado acesso aberto, mas que qualquer associação privada continua vinculada a regras de filiação, princípios sem fins lucrativos e um marco jurídico moldado por um escrutínio judicial contínuo.
Fontes
- Reducir daños del basuco exige enfrentar también la violencia (canamo.net)
- Irlanda busca destrabar el cáñamo industrial tras cultivar solo 11 hectáreas (canamo.net)
- El mercado del plátano en la Península, aún más hundido: los agricultores ya solo reciben 0,36 euros/kilo (eldiario.es)
- 'Canarias: 50 años tras la oscuridad': La Reparación (eldiario.es)
- Canarias registra un 30% de muertes por ahogamientos en 2026 (abc.es)
- La Universidad de La Laguna detecta acumulación de radón en varios de sus edificios (abc.es)
- Una asociación que teme desaparecer tras 13 años de lucha y ante un cierre inminente (eldiarioalerta.com)
- Clausuran un club de cannabis en Carmona por graves deficiencias y droga sin origen acreditado (diarioavanza.es)
- Auge y declive de los clubes sociales de cannabis en España (lasdrogas.info)
- Seis detenidos en Dénia al desmantelar un club cannábico donde presuntamente vendían drogas (europapress.es)

